04
Mar 09

A parede amarelo clara, as poltronas azuis, aquele tapete cheio de desenhos que borboletavam no chão. E ele em fretne em mim. Eu pudia reconhecê-lo em qualquer lugar do mundo. Seu rabo de cavalo grisalho era inesquecível.

Estavamos no consultório, na terapia como havia acontecido muitas outras vezes, mas desta vez eu não estava sentada a sua frente. Eu estava do lado de fora da cena, como que num cinema comendo pipoca e observando a conversa tentando entender do que falavam.

As pontas dos seus dedos se encontrando, sua cabeça jogada pra trás, ele pensando na pergunta. Agora os olhos fechados olhando em frente, como se me visse.

-Você é feliz?? - a pergunta saia como como um corte de papel, um pequeno mas visível corte no dedo. Surpresa, poucas vezes estive assim, porque poucas coisas conseguiam me deixar constragida, mas essa, eu descobri rápido. Fora uma delas.

-Sim, bom..não completamente, mas sei que devo ser grata por tudo que tenho, sabe..comparando a um mendigo, que não tem ninguém, nem lugar pra morar. Sou feliz por isso..tenho muito. -estava embaraçada, sem saber se fora convincente o suficiente.

-Você precisa se comparar a um mendigo pra se sentir feliz??- Ele abrira os olhos.

Aquele foi o segundo corte. um pouco maior. Tentava apertar meus dedos bem juntos, mesmo sabendo que não existia nada sangrando. Não de verdade, só numa parte onde ninguém via.

Antes que eu pudesse me ver respondendo a pergunta, tudo ficou escuro. E fui sendo puxada pra trás, levada pela mão. Estava tão escuro, e eu com medo olhava pra baixo, só parei quando senti meu pé batendo em algo. Quando olhei pra cima, vi um caixão. Me lembro bem demais daquele maldito caixão, lá dentro como sempre, estava meu pai. Ele estava bem paradinho, eu comecei a tatear seu rosto, bem devagar tentando guardar cada sensação do contato dos meus dedos com sua pele fria, cada marca facial, ruga, cicatriz queria guardar tudo em mim, as lágrimas corriam soltas, até que de repente ele respirou fundo, seus olhos se abriram.

-Esta fazendo cócegas, desse jeito não posso dormir- não estava bravo, ou chateado, pediu com calma. E deu um sorriso, a boca, com algodão caindo pelos cantos.

O soltei, fiquei imóvel sem saber o que dizer, andando pra trás, até tudo ficar escuro de novo, e silencioso. O terrível silêncio, e eu caladinha encolhida no chão, tentando entender o que estava acontecendo.

De repente ouço risadas, altas, gostosas de se ouvir, soltas e leves, como bolhas de sabão. Olhei em frente, eu estava deitada no meio do corredor de um hotel, e na hora pude perceber o rapaz parado a minha frente. Alto, magro e inbrozeável. De boné, cabeça baixa me oferecendo a mão como apoio, eu levantei, ele passou a mão por meu cabelo e deu um beijo na minha testa. Ele me deixava tranquila, agora eu iria embora daquele pesadelo pra um sonho. Precisava disso, de paz, de calma, ter certeza que ele ficaria comigo.

- Meu cabelo é liso, eu não faço chapinha- foi uma coisa idiota, estúpida de se dizer, então pensei "por que diabos disse aquilo??".

- Eu sei, ninguém disse isso.- Me olhou com cara séria, e a mão fazendo sinal de negativo. Me senti mais idiota ainda por aquilo, ele foi andando na frente pra pegar o elevador, eu fui atras, ele indo cada vez mais rápido, agora eu correndo para alcançá-lo.

- Não vá embora, me espere, por favor, só um pouco.

Eu estava sozinha agora, sozinha de novo. Até alguém sussurar no meu ouvido -

"Senão é como amar uma mulher só linda
E daí? Uma mulher tem que ter
Qualquer coisa além de beleza
Qualquer coisa de triste
Qualquer coisa que chora
Qualquer coisa que sente saudade
Um molejo de amor machucado
Uma beleza que vem da tristeza
De se saber mulher
Feita apenas para amar
Para sofrer pelo seu amor "
- Eu sabia muito bem de quem era aquela voz, porque a adorava, me virei alegre. E tudo o que via era um vulto correndo.

-Você tem que ficar sozinha.

Ele sumira completamente, e eu sentia uma mão gelada me segurando. Relutei em me virar, estava cansada daquilo, cansada demais pra lutar contra o medo.

Olhei.

Era uma menina. Eu sabia quem era. Era a MINHA Luiza..a minha Luz. Estava chorando e pedia ajuda, tinha queimado o braço, e ela gritava de dor. Eu entrei em desespero, corremos pela escuridão procurando ajuda, até tudo começar a ficar estranhamente claro, estávamos no meio do nada, no meio do mato. Eu sabia onde estávamos. No meu trabalho, quer dizer..na vegetação da fazenda. E o fogo parecia comer tudo em volta, a segurei em meus braços, chorando, chorando, o medo explodindo nas lágrimas. Ela me olhou, se afastou:

-Estou indo embora, não quero ficar com vc, não quero.- Se virou e foi indo.

Eu correndo atrás dela, não a deixaria sozinha. Não queria ficar sozinha.

- Por favor, minha luz, fique, não vá.- A toquei, segurei seu braço, e de repente, ela foi derretendo, virando cinzas.

- viu o que você fez, Priscylla, você sempre faz isso. Tudo o que toca...morre de alguma maneira.- E morreu.

O fogo chegando, e eu caída no chão, chorando,chorando, chorando..sozinha.

Quando acordei, suada, e coberta por lágrimas não sabia quanto tempo durava o sonho/pesadelo. Pareceu uma eternidade.

Eram 3:47 da manhã. Não consegui dormir, não tinha vontade disso, tinha na verdade medo de começar tudo de novo, de novo e de novo. Fiquei olhando o teto, pensando e entendendo como de uma aluna de ensino médio quase feliz tinha passado para uma assalariada deprimida. Um zumbi, faminto não por cerebros como a maioria, mas por sentimentos, qualquer coisa que me fazesse sentir viva. Desde..muito tempo, eu já não ligo pra nada, amigos me são indiferentes, musicas não me tocam, ou emocionam, livros não surtem o mesmo efeito. Estou louca, obcecada, terrivelmente sozinha, e nem ao menos posso dizer porque estou assim.

O sonho acabou mais ficou rodando em mim o dia todo. Mostrando o quanto eu era prejudicial a quem estava comigo.

Tudo o que mais quis..talvez ainda queira mas não com tanta vontade é morrer.

E é idiotice pensar nisso, porque quanto mais se quer, mais longe se esta. Percebi que não tinha mais medo de morrer, hoje quando acordei, tudo o que eu queria e precisava era morrer. Não importa a dor que causasse na minha vó..era isso o que eu queria.

Em parte é isso que quero.

publicado por serenaatedemais às 21:12
Precisando de : vazia
Ouvindo: Eyes on fire- Blue Foundation

comentário:
"Alto, magro e inbrozeável."

isso me parece familiar..
n sei pq
=\


axo q todos sao assim minha cara.todos saem da escola e se deparam com isso.
TEM que dar um rumo na vida, TEM q procurar um meio de ganhar a vida, TEM que fazer uma faculdade, TEM...TEM...TEM


e todos dizem aquela frase: 'eu era feliz e nao sabia'
axo q no fundo isso faz parte da adolescencia, essa mudança radical
mas depois tudo se ajeita. nao se c a gente simplesmente acostuma ou a maturidade nos da outra visao da vida. sei la!




bjao linda
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"quem desiste sempre perde"
rique a 6 de Março de 2009 às 16:24

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